[parceriasenfumaçadas]

Naufrágio
por Taís Campelo

Vinte e três horas e quarenta minutos, recebendo mensagem 1 de 1. Um convite para festa chegava para Helena via e-mail, dia dezenove, sexta-feira, a partir das vinte e duas horas, na Solid, um desses bares da última última moda, onde todos vão para verem e serem vistos, um lugar extremamente fashion e moderno que, em alguns meses, perderá seu brilho e seus clientes para outro bar, mais fashion e moderno ainda, e do mesmo proprietário. A vida noturna na província de Porto Alegre, consumação mínima feminina dezoito reais.

Um ambiente como esse demanda roupinha cool, e lá está Helena garimpando o shopping center na manhã seguinte. Estilo é tudo hoje em dia, taí a Glória Kalil que não me deixa mentir. Na dúvida entre uma produção neo-punk-ninfetinha ou algo mais pseudo-intelectual-pós-moderno, opta, simplesmente, por algo que sirva. Seis quilos não somem da noite para o dia, mas Helena, confiante, leva para a casa a calça um número menor que o seu, com a missão de conseguir vesti-la até o final da semana. E, naquela tarde, ela foi para o inglês sem almoçar.

Pediu pra mãe comprar mais brócolis e alface, cenoura, um pouco de aipo e ervilhas. Terça era dia de super e, apesar da insana vontade de abocanhar o pacote de Bono doce de leite, conteve-se. Jantou uma maçã e comemorou os novecentos e setenta gramas perdidos com um brinde de Ice Tea diet. Menos três quilos e ela consegue fechar o zíper. Antes de dormir, baixou os mails para saber quem já havia confirmado a presença na festa.

Ao saber que Marco Aurélio iria, providenciou uma hora com a depiladora. Virilha e meia-perna, só por precaução. O regime emergencial de Helena estava surtindo efeito, pois, num primeiro teste, a calça passou pelas coxas roliças sem grandes dificuldades. Na quinta-feira à noite, foi à aula sentindo-se magra, bem humorada apesar da cólica pentelha no ventre. Passou corretivo nas olheiras fundas, soltou o cabelo e aproveitou o intervalo para combinar uma cervejinha com as gurias antes de irem pra Solid. Chegando em casa, foi conferir a balança. Estava um pouco inchada, mas a calça estava quase fechando. A partir amanhã, vai cortar também a alface.

Fincadas na barriga, costas esmagadas e sono, muito sono. Levantou da cama às três horas da tarde, fraca, e com uma desagradável sensação molhada entre as pernas. O fluxo havia manchado a calcinha, o pijama, o lençol, o colchão e Platão, seu urso de pelúcia. A merda de nascer mulher é ter que passar a vida jorrando sangue pela boceta. Arrastou-se até o banheiro para um banho escaldante. Fechou o chuveiro um pouco tonta, tropeçando no tapete do lado de fora do box. Enrolou-se na toalha com o cuidado de não sujá-la. O remédio pra cólica que tomou não parou no estômago nem dois minutos. Expelindo secreções diversas por canais variados, pensou Helena antes de desmaiar no corredor.

É. Meninas anêmicas não podem fazer festa.

Escrito por Dinho Bandini às 13:57:57
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[meandthedevil]

:: ME AND THE DEVIL ::
Robert Johnson

Baby, I don't care where you bury my body when I'm dead and gone

You may bury my body, ooh, down by the highway side
So my old evil spirit can get a Greyhound bus and ride


Escrito por Dinho Bandini às 12:51:38
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[festivaldinhobandinidetextossemsentidoquefariammamaechorar]

VI

Madrugada vermelha de verão. O calor dessa noite não me deixa adormecer, só me deixa preocupado com o cheiro de verão, de flores e asfalto úmido, cheiro que lembra minha infância. Abro um pouco a janela do meu quarto para tentar ver a madrugada de Porto Alegre. Para tentar achar respostas nas estrelas de Porto Alegre, nas esquinas de Porto Alegre e em cada uma das árvores dos parques. Por um segundo parece que a lua ri dos meus pensamentos.


Acendo um cigarro e me dou conta de que a resposta para todas as minhas perguntas não está em nenhum lugar dessa cidade. Na minha cama o lençol branco suavemente molda os contornos de Marcela. Abro mais a janela, para que a luz da lua desenhe mais no corpo dela. Marcela. Tem cheiro de flor e olhos de asfalto. Lembra a minha infância. Talvez por isso ela me seja tão estranhamente familiar. Parece que eu sempre soube que ela um dia seria minha. E pensar que poucos meses atrás eu ainda estava parado, desejando essa mulher, e sem nenhum pingo de coragem de dizer alguma coisa, de fazer alguma coisa. Tenho que agradecer àquele telefonema.


Tarde horrível de setembro. Meio frio, meio quente, meio úmido. Eu com dor de cabeça e gripe, escrevendo no computador. Pensando nela. Onde será que ela está? Certamente com o namorado. Será que ela pensa em mim? Será que eu realmente quero saber? Eu queria colocar minha roupa de veludo, meu chapéu panamá e sair pela cidade, de banho tomado e com cheiro italiano. Queria ir até sua casa, com um ramalhete de rosas vermelhas e dizer-lhe tudo que penso, depois nem ouvir a resposta, sair e caminhar pelo bairro. Quero que ela me ame. É, mas eu não tenho coragem. Ou não tinha. O telefone tocou.


Pensei nos olhos dela. No sorriso dela. Pensei em Marcela lambendo seus lábios enquanto sorria, e corri para atendê-la. Alô? Sem resposta. Perguntei quem era. Sem resposta. Esperei alguns segundos e percebi que o silêncio era tão profundo do outro lado da linha que eu podia ouvir meu coração. Desliguei o telefone.


Sentei-me na frente do computador e lembrei dela mais uma vez. Dessa vez, porém, com um desejo incontrolável de tomar um banho, usar meu traje de veludo e minha loção italiana. Alguma coisa me disse que era o meu dia. Comprei uma dúzia de rosas e invadi seu apartamento. As palavras voavam da minha boca. Falei muito calma e pausadamente tudo que vinha à minha cabeça.


Não tirei os olhos dos olhos dela. Ela chorou. Caminhou em minha direção e me beijou. Os espinhos das flores machucavam meu peito, mas ignorei isso. Pedi que andasse comigo pelo bairro até meu apartamento. Vinho, risadas e poemas mais tarde ela se rendeu aos meus beijos e foi para o meu quarto.


Sorriu durante todo o tempo, depois adormeceu em meus braços.


Agora pensando, lembro-me que tudo começou com o telefonema de ninguém naquela tarde. Pensei que muitas vezes, quando era mais jovem e morava com minha família, o telefone tocava e quase ninguém sentia a mínima vontade de atender. Mas alguém sempre atendia, e com pressa. Uma pressa quase insana. E do outro lado ninguém respondia. Mesmo assim, quem atendia nunca desligava sem pronunciar algumas palavras. Por quê? Lembrei-me de um pensamento que tive quando olhava as estrelas e aconteceu isso com meu irmão. Disse-lhe que eram os anjos da guarda que faziam essas ligações. Ele riu. Disse-lhe que qualquer um podia ter atendido o telefone, mas só ele teve aquela vontade irascível de fazê-lo. Tornou a rir e me disse que parasse de fumar maconha. Então eu ri e disse que os anjos sabem como a gente está só pelo tom da nossa voz. Eles parecem não dizer nada, mas estão falando com a tua alma. Se estiver indo bem, eles lhe cumprimentarão pelo sucesso; se estiver mal, lhe darão conselhos. Mas os homens são muito cegos e não percebem nem depois de terem seguido os conselhos. Pensei em agradecer o meu anjo pelo conselho que ele me deu hoje.


Apaguei o cigarro e me ajoelhei do lado da cama. Fiquei olhando bem de perto o rosto de Marcela. A cor de sua pele era ainda mais bonita banhada pela luz da lua. O perfume de flor emanava de seu corpo quente. Sorriu, depois mordeu uma ponta do lençol e ficou com ele entre os lábios. Rezei, agradecendo ao meu anjo por aquela noite com ela. Pensei no namorado dela e tive medo que assim que acordasse, voltasse para ele. Sentei-me no chão e fiquei velando seu sono, pensando no que aconteceria quando ela acordasse.


Eram quase quatro da manhã quando fui para a varanda. O telefone começou a tocar. Não senti a mínima vontade de atendê-lo. No segundo toque, Marcela acordou. Atendeu o telefone. Entrei e perguntei quem era. Ela sorriu, me beijou e disse que era uma daquelas ligações esquisitas, em que ninguém fala nada. Sorri e pensei que estava, mesmo, na hora do anjo dela ligar. E agradeci ao meu mais uma vez enquanto a beijava na rubra madrugada.



Escrito por Dinho Bandini às 13:12:43
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[overthehilliseefallingtrees...]

 Sem internet, sem cartinhas de amor...



Escrito por Dinho Bandini às 12:56:19
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[festivaldinhobandinidetextosindecorososquefariammamaechorar]

HISTÓRIA DO BRASIL (Com Culpa)


Eles roubam


Eu assisto


Eles saqueiam


Eu anoto


Eles destroem


Eu condeno


Eles torturam


Eu grito


Eles viciam


Eu critico


Eles alienam


Eu discuto


Eles estupram


Eu choro


Eles mentem


Eu denuncio


Eles matam


Eu amo


Eles viajam para Washington


Eu sinto saudades de Porto Alegre.



LEGÍTIMA PUNHETA (Sem Culpa)


Quando penso em ti


Sinto um arrepio de paixão


Mas estás longe daqui


E quase morro de tesão



Passo os dedos pelo meu pau


Como nas cordas de uma violão


Ou no corpo de um berimbau


Sem sentir a menor condenação



E se tudo isto parece sem nexo


É por causa da minha abstração


Em torno da fome de sexo


E de uma estranha compulsão



Para criar singular poesia


Que seja correta contribuição


Com rima e cheiro de maresia


Para um blog chamado almanaque cão.



Escrito por Dinho Bandini às 12:30:25
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[dasérie: atendendoospedidos]

 

VESTIDO PUNK

Me deixe mini

Simplesmente saia daqui

Corra na dor da casa

Vista cimento e coma brasa

Me deixe mudo

Simplesmente escute aqui

Atire, o punk é breve

Flutue, cama nos deve

Me deixe sexo

Simplesmente toque aqui

Desnude pele

Espere, espere

Me deixe mini

Abandone aqui

 

*

 

VESTIDO PUNK (VERSÃO TAMANHO ÚNICO)

   Espalhe-se mini

Novamente invada aqui

Pague as dívidas da casa

Grite, crie asas

Beba mini

Naturalmente entorpeça aqui

Vente, o tecido é leve

Receba, o corpo merece

Erre, erre

Orgasme mini

                 saia por aí



Escrito por Dinho Bandini às 12:18:16
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[missbicicleta]

Homem ao mar. Busquei uma âncora na rua. Uma dupla de ciclistas sorridentes enquadrados na janela do “Atila, o rei dos Unos”. Havia algo engraçado disparando aqueles risos. Não era exatamente no momento que minha cabeça vacilante nadava em badaladas provocada pelos sinos da minha selvageria boêmia compartilhada aos baldes entre eu, a moça e a quarta-feira. Estávamos ali numa avenida João Pessoa cheia de pessoas decididas e motoristas procurando saída. Um dos ciclistas, uma mulher, se autoproclama a musa do instante. She´s dummy. She´s weirdo. De repente ali mesmo naquele cruzamento ela iria dar sua gargalhada moldada nas revistas de comportamento de bandeja algum catador de papel ou sua saúde impecável a algum malabarista de sinaleira. Nada disso acontece. 25 centavos em moeda corrente. Ela está alheia ao mundo. Seus glúteos estão endurecendo e ela ficará feliz por finalmente vestir seu ego com elogios ao seu esforço em agradar náufragos e marinheiros. Um palavrão foge da boca de Joana. Começava a chover. O sorriso debochado e a altivez da Miss Bicicleta se desmancham enquanto nas primeiras gotas de chuva, os contornos dos seus labirintos acenam as buzinas dos outros motoristas. Roubo um beijo da minha moça e o sinal abre. Chega o resgate.



Escrito por Dinho Bandini às 11:58:05
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[di-amante-ego]

Sufocando suando caído sem conseguir me mexer. De repente a janela abriu e entrou uma lufada de ar e eu pude respirar olhar em volta e lá estava você brilhando diamantezinho no meio de mil pedras e me deu a mão e eu consegui levantar e me pegou no colo e me tirou do lixo. E o lixo queria ir junto e você disse não e me carregou pro outro lado limpinho e me mostrou a cascatinha de hoje que cai amanhã e eu bobo sem conseguir falar só olhando olhando olhando procurando algo pra dizer mas não achando e rindo e só conseguindo ver sol em tudo e você não fala nada mas não precisa falar nem se mexer nem nada, fique só existindo para que possa ficar olhando e sorrindo e com o peito explodindo e batendo tuntstuntstunts e a respiração fa-zen-do-a-s-s-i-m e me deixando sem jeito e eu continuo não podendo falar nada que preste e não venham vocês agora me dizer que é passageiro estragando tudo que eu descobri. Após cavar e cavar e cavar achei uma pedrinha que parecia bonitinha e só muito tempo depois descobri que a pedrinha valia tudo e que estava sempre ali mas eu não tinha visto. Quero um gole pra ver que gosto tem e se sacia e se agüenta a ôia : sim porque não vai achando que é assim meu filho tem que agüentar e não é coisapoucaqualquer não. Until the rainbow burns the stars out of the sky until the ocean covers every mountain high until the day that 8 times 8 times 8 is 4 until the day that is the day that are no more e não venha dizer que não sabia tava na cara porque eu não sei esconder e eu te disse como funcionava e de que era feito e que era fininho e fragilzinho mas era forte e ficava e agüentava vento e chuva e tudo desde que não metam a mão porque aí cai tudo e derrete e nunca mais volta ao normal como a taça quebrada em milhões de caquinhos que nunca mais vai ser uma taça só caquinhos cortando e fazendo sangrar e deixando pedacinhos e incomodando e doendo muito. Mas é assim mesmo dói e faz parte e que se foda o orgulho enorme e que tudo vá às favas porque agora eu não posso estou olhando e mexendo nos cachinhos e arranhando as costas e pensando como eu não tinha visto antes ? Mas é assim mesmo tá sempre ali na cara quando a gente menos espera *pop* salta que nem pipoca e aparece todo o branquinho de dentro. E é assim mesmo o começo ou o não-começo ou o nada que é, mas é porque tá bem aqui no meu pertinho. Agora é always até que se prove o contrário agora vou all the way agora já foi. Poc.

Escrito por Dinho Bandini às 17:18:33
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(devidamenteautorizado)

IV

VERA LÚCIA


  Vem, vamos tomar banho no rio, disse Vera Lúcia, com a evidente intenção de trepar comigo. Eu tinha dezesseis anos e estava louco por Vera Lúcia, mas tinha medo daquele rio. Ela percebeu e disse: não tem perigo, a gente fica naquela piscininha, até criança pequena brinca ali, mas hoje não vai ter ninguém, é segunda-feira, vamos logo. E eu fui, morrendo de tesão e ao mesmo tempo todo cagado, porque sabia de muitas histórias de pessoas que estavam na piscininha, bobearam e foram levadas pela correnteza, direto pra cachoeira de Deus Me Acuda, um pouco mais adiante, logo depois de uma curva do rio, uma queda livre de quase cinqüenta metros, muito bonita de se ver, mas lá de baixo, fazendo piquenique, e não caindo na direção da morte certa. Vera Lúcia caminhava pela trilha à minha frente e, cada vez que eu pensava em inventar uma desculpa qualquer e desistir, ela sacudia a bunda, dava pra ver o começo do reguinho, porque ela, sacana, tinha baixado bem a saia. Chegamos na piscininha e ela logo tirou a roupa. Estava com um biquini bem pequeno. Eu fiquei de pau duro na hora. Vera Lúcia já tinha trepado com todos os meus amigos, só faltava eu, e eles contaram que tudo começava tirando ela mesma a parte de cima do biquíni e depois pedia que tirassem a parte de baixo, já dentro d'água, já com os corpos se tocando dentro do rio, o rio que levava as pessoas pra a cachoeira de Deus Me Acuda. Ao mesmo tempo, eu pensava, todos os meus amigos sobreviveram, estão aí, contando vantagem, falando das delícias de trepar na piscininha com Vera Lúcia, enquanto as histórias de gente carregada pelas águas eram casos obscuros, não lembrava do funeral de uma pessoa conhecida, de carne e ossos molhados e esmigalhados, dentro do caixão, sendo levada para o cemitério. Naquela época, as pessoas morriam de ataque do coração ou dos nervos, fora uma que outra picada de cobra ou pastel do bar do Henrique. De modo que, quando Vera Lúcia tirou a parte de cima do biquini e entrou na piscininha, eu já tinha decidido que iria trepar com ela. Ela sorriu, boiando de costas, e disse que a água estava quente. Mas eu não entrei, fiquei ali, de pé, vestido, hipnotizado pelos peitos de Vera Lúcia, que afloravam do rio como duas pedras brancas, os bicos apontando para o sol forte do dia vinte e dois de dezembro. Ela disse: tira a roupa. E eu tirei, fiquei só de cueca. Ela disse: entra. Mas eu não entrei. Lembro de ouvir o som dos passarinhos, uma buzina de um carro passando bem longe e o rumor das águas despencando na cachoeira de Deus Me Acuda, logo depois da curva do rio. Vera Lúcia disse: não tem perigo, e, como se quisesse provar a segurança da piscininha, tirou a parte de baixo do biquíni e atirou em mim. Riu quando me abaixei, depois jogou a cabeça pra trás e continuou boiando, agora de olhos fechados, com os cabelos e os pentelhos, ambos muito pretos, formando duas manchas escuras sobre a água transparente. Eu percebi que ela se afastava um pouco da margem, abandonando as águas paradas da piscininha, e gritei: cuidado! Ela levantou a cabeça, sorriu e tentou nadar de volta, primeiro uma braçada preguiçosa, depois uma mais decidida, depois uma sucessão de movimentos desesperados, contra uma correnteza muito mais forte que ela. Vera Lúcia tentava se agarrar nas pedras, tentava nadar, tentava caminhar, mas não ficava de pé, logo caía e seguia adiante, envolta na espuma do rio, o rio que levava pra cachoeira de Deus Me Acuda. Eu fui caminhando pela margem, lembro de procurar um galho pra estender pra ela, mas nós dois sabíamos o que iria acontecer, ninguém gritou, ninguém pediu socorro, na verdade ficamos nos olhando o tempo todo, e eu tenho certeza que a gente se apaixonou naquela hora, que as trepadas com os meus amigos tinham sido só brincadeira, mas comigo seria diferente, talvez a gente começasse a namorar, pode parecer bobagem, mas pensei em como seriam meus filhos com Vera Lúcia, enquanto ela rolava na água do rio, bem perto da curva que escondia a cachoeira de Deus Me Acuda. Subi correndo um morrinho, a tempo de acompanhar os últimos movimentos de Vera Lúcia, já depois da curva. Ela não lutava mais, agora se deixava levar, mantendo apenas a cabeça pra fora, e sempre olhando pra mim, calada, resignada, nua, os peitos brancos aparecendo de vez em quando no meio da espuma e da água brilhante. Não ouvi nada quando ela caiu, nem grito, nem o som do corpo batendo lá em baixo, foi como se tudo continuasse como antes, mas não continuava, porque uma parte de mim também caiu na cachoeira de Deus Me Acuda. Hoje, tanto tempo depois, sempre que penso em Vera Lúcia, o que é mais freqüente do que desejaria, a primeira imagem que aparece é aquela da piscininha, ela boiando nas águas tranqüilas e pedindo pra eu entrar. Eu não entrei, não trepei com Vera Lúcia, não caí com ela na cachoeira de Deus Me Acuda, e isso me parece um bom motivo para fumar um baseado, tomar um vinho tinto e me arrepender amargamente.



Escrito por Dinho Bandini às 17:11:35
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II

"Minha amada Lois,

Sei que moras em Metropolis e nos vemos tão pouco, sei que é loucura tudo isso, mas são três e vinte e três, é uma terça e eu perdi o Yo! MTV raps, pensando em coisas que não devia, no roteiro que eu tou escrevendo baseado no poema que eu te fiz, que tu nunca leu e que eu não mostrei pra ninguém, mas escrevi num guardanapo e perdi numa sarjeta. Me afoga, me prende. Eu tou pedindo. Me afoga, me prende, eu tou sorrindo. Eu tou sozinho e uma Jack Daniel's me faz companhia na madrugada.

I am i be i am i be, eu sou eu estou eu sou eu estou eu sou eu estou completamente
bêbedo de amor por você meu bem, que não vê: me despreza, me depreda o coração e o
sentimento seja ele o sétimo tormento de toda minha razão, seja ele o dia que desponta por trás daquele muro de cimento e tijolos sujos que vejo da minha janela ou apenas o sentimento de tédio e saturação do Olsen que não lê mais tudo e tudo que eu escrevo nem mais eu leio nem mais eu vejo e fico velho e cansado e até dores nas costas desenvolvo.

Quero te escrever uma carta de amor, quero dar-te um buquê de flor mas eu sei que não é assim que funciona a química que é necessária para iniciar a combustão de paixão que vai nos levar a um abismo eventualmente, que vai me fazer chorar e te escrever um romance que eu começarei pela terceira vez na vida como já comecei antes para tantas meninas que fugiram de mim como eu fujo de tantas outras que me aparecem como sonhos bons em horas de decisão e de manhã despontando linda no inverno com gosto salgado de lágrima e de bem-querer.

Não, meu Deus não quero acreditar que estou acabado, que não tenho mais chance e que
tudo que me resta é me conformar com a tristeza de um emprego que não tenho e um esquecimento que me parece inevitável e de vitaminas que não tomo pois tenho vergonha
de parecer insuficiente para meus vinte poucos anos de idade mal completados. Quero sim te comprar chocolates e um cartão postal do Tahiti quando estiver trabalhando de correspondente de guerra para a CNN. Quero causar frisson nas meninas que não me vêem, quero ser o primeiro a correr pra fora de casa, quero falar japonês enfim outra vez.

Quero morrer em teus braços, quero te confessar tudo que eu preciso, quero achar uma maneira racional de te fazer deitar comigo na relva e olhar as estrelas pra que eu possa contá-las pra você, pra que eu possa contar uma história pra você e te fazer acreditar que você tem o segredo do meu desejo, você entende os meus anseios, você sabe a cor dos meus olhos e o tamanho dos meus pesadelos, você que quer receber minhas cartas e quer que eu tenha barba vermelha e cabelo cortado, você que odeia o Leonardo di Caprio e come Cheddar comigo às vezes mas confessa comer peixes com nomes kamisama que quer dizer deus mas kani é algum fruto do mar.

Eu aguentaria tudo, desde o teu puritanismo até a tua falta de vontade me beijar, coisa que
eu percebi e eu sorri porque eu tinha te dito pra me dar um beijo, e mesmo que eu grite que te amo ainda assim parece insuficiente, parece que a noite toma conta de tudo que eu penso e que todas as luzes se apagam quando tento encontrar uma saída para a caverna onde me isolei. Eu seria capaz de te amar de te beijar e te dar comida na boca, te levar pra passear no meu jardim que eu mesmo teria de inventar, comprar um carro que eu gosto e dar de presente pra ti toda a minha vida.

Por você eu pararia de escrever no jornal, de respirar e de enxergar. Cortaria minha barba e
meus cabelos, mudaria meu nome e arranjaria um emprego mesmo que fosse de aduaneiro e
que eu tivesse que bater 150 mil pregos por dia numa tenda de circo em fase de montagem. Por ti eu comeria vagem, fugiria da minha mãe e bateria em meu melhor amigo, eu fugiria da cidade e seria um renegado para sempre, perderia a minha entrada no paraíso e seria julgado bandido. Arderia no fogo do inferno, seria julgado no fóro civil e inventaria uma soda cáustica contra teu sorriso se isso me livrasse da tua imagem nos meus sonhos.

Eu sei, os anos de faculdade ainda devem parecer próximos para ti também, mas lembra-te o inconseqüente que eu era, meu bem. Lembra-te das noites de tragos e orgias romanas, das drogas, do speedball e da cocaína, meu amor. Lembra? Tudo aquilo acabou também me marcando pro resto da vida, me deixou doente. Mary Jane estava lá e me curou. E eu amava ela, de verdade. Mas não como eu te amo, Lois. Não é algo que eu consiga controlar, entenda. Apesar de pertencermos a universos paralelos hoje em dia, ainda penso muito em você e lembro de nossos anos de UCLA.

Não te inspiro confiança, decerto. Te traio os olhos quando faço idioitices, ajo estúpido, faço papel de palhaço. Rezo para te pedir de presente de natal, acredito no bug do milênio e falo pra todo mundo o que sinto mas não é o bastante. Escondo minha esperança nas minhas realizações que não são tantas, isolo meu sentimento e meu coração em um pratinho de bolo no aniversário da minha mãe. Canto jê sê criê e roubo partes de tua calçada, passo na madrugada em tua rua, escrevo poemas para tua varanda vazia. Sofro de dor, dor que só vai cessar no teu beijo que eu sei que corre o risco de jamais chegar.

Quero que tu me entendas e não te entedies com meus trejeitos. Quero que as vantagens de ser mais alto me façam ser capaz de te alcançar uma maçã, cometer o pecado original e te levar a um nível proibido de tua alma, uma coisa que acabe com teus medos, com teus desvios de coluna e com minhas concussões espontâneas. Trago esta rosa para te dar e vou ficar de andada até te achar. Só por sua causa só por você só por você. E quando eu estou contigo eu quero gostar. E quando eu estou um pouco mais junto eu quero te amar. Não me deixe só. Não me deixe só.

Eternally yours,

Peter Parker"

Escrito por Dinho Bandini às 16:26:23
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I

E sabe uma vontade insuportável de chegar no teu quarto e te ver de saia curtinha pretinha, de pé no chão e ventilador ligado me chamando e me sorrindo e com os olhinhos meio fechados e os peitinhos já levantados por de baixo da camisetinha branca espremidos contra o sutiã pretinho de renda diferente da calcinha de algodão branquinho com ursinhos perfumada do teu perfume que emana de todo teu corpinho macio, das perninhas mais perfeitas que eu conheço e olha que eu conheço um bocado de perninhas que eu quase sempre chamo de coxas mas tuas coxas são perninhas maravilhosas e docinhas e quentinhas e pedindo mordidas pra escutar teus ais com a tua vozinha e sentir a tua língua na minha orelha enquanto meus dedos te percorrem pedindo uma frase, pedindo um socorro, pedindo um carinho, implorando pra deitar contigo e me perder em bobagens como os Pixies, que eu nunca tinha parado pra ouvir muito mas que depois de ter sido cantado como tu me cantou eu simplesmente não pude mais ignorar porque a música do Frank Black era agora parte de mim como cada um dos teus murmúrios e cada dia que eu não te ligo com medo de te encontrar contente de me ver longe distante de todas essas coisinhas que circundam o teu pescoço e de todas as roupinhas que tu vestia pra ir no banheiro de manhazinha cedo enquanto eu me fingia de dormindo só pra esperar teus estalinhos de lábio no meu rosto e teu abracinho de braços pequenos pressionando os seios contra minhas costas curvadas e imaginar tua boca brincando com a minha e o cheiro do teu cabelo é meu veneno, minha droga é o gosto das nossas madrugadas lisérgicas e eróticas e tu é com certeza a única mulher com quem eu me casaria nesse mundo e se isso não vier a ser realidade um dia então morrerei solteiro e isso nem terá sido em vão pois te conheci e te tive como amiga e como amante, fui quase teu pai e fui um pouco dos teus desejos e anseios em muitos momentos incertos da nossa curta intersecção de destinos?

Pois é, eu tenho essa vontade de fazer tudo de novo às vezes.

Escrito por Dinho Bandini às 16:22:23
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