[dinhofazendoacaveira]ou[alguémmearranjaumdossiê?]

Escrito por Dinho Bandini às 14:31:05
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[Capítulo I - Incredulidade]
- É difícil de acreditar, eu sei. Mas é verdade. É a pura verdade. A voz de Cláudio soava séria, sem nenhum traço de ironia. Mas ainda assim Pedro não se convencia. E como poderia se convencer, se era algo tão absurdo, tão contrário às leis da física ou da biologia? - Você está me gozando! Boceta fosforescente? Onde já se viu? - Não sei. Uns dizem que ela uma vez transou com um cara que tinha um implante no pau feito com material radioativo, e por isso ficou desse jeito. Outros dizem que é uma mutação genética ou disfunção hormonal. O fato é que ela é assim, e pronto. - Não acredito. Me desculpa, mas não acredito. - Pedro, vai por mim. Ela tem a boceta fosforescente. Brilha no escuro. Eu vi.
Escrito por Dinho Bandini às 14:30:12
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[35mldeamor]

Escrito por Dinho Bandini às 15:55:54
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[doispoemasdeamorverdadeiro]ou[hein?]
I
Viver perigosamante Calma de naftalina nos olhos da menina. Haviam idéias más na cabeça do rapaz. E nada brotou dali! Ela, inventou xixi. O outro, louco de medo, fugiu, dormiu mais cedo.
II
Poeminha indignado Madrugada de curtas horas, quase um suspiro do dia. Aurora de vinho e de corpos a rolar em sincronia. Manhã de sono e aconchego, de afagos e harmonia. Porque despertar desse jeito, com a bunda na laje fria?
Escrito por Dinho Bandini às 15:32:32
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[heroína]
Eu tinha trabalho a fazer e um café para pagar de aposta ao fotógrafo e “bonito” Carlos Sá. Mas ela ficava jogando o olho pra lá e pra cá. Acabava com a mira bem onde o meu estava. Estávamos todos na confeitaria são mateus com o vendedor de guarda-chuva faturando alto e fazendo todo mundo rir. Parecia fácil. Chovia por toda a fuga que se imaginasse e o Carlos cada vez mais atucanado limpando as lentes da sua Konica. Ela continuava olhando, lá do outro lado da máquina de café. Acho que não havia ninguém para salvá-la, nenhum super-herói por perto. Eu não acredito. Minha mão segue na caneta que segue no bloco. Não estou em condições de aproveitar a criatividade preciosa e maliciosa desses olhares. A verdade é que a gente só dá uma olhada. Só vemos o que precisamos ver. Sem exageros nem sobras. O Romeu não tinha a acuidade visual do falcão por isso olhou como podia. E pronto. O romance, a perdição, e Shakespeare consagrado e etc. eu também não tenho este tipo de visão. Nem romances que viram clássicos literários. Mas eu tenho HiperMetroPia e preciso de óculos. Com eles, a visão é mais seletiva e quando estou sem eles acabo vendo demais: o olho fica perdido e mal consigo piscar. Com os óculos eu tenho a noção do enquadramento, enxergo tudo certinho. Com moldura e tudo. Segundo minha mãe “os homens que usam óculos parecem mais gentis, doces e desamparados”. De repente não era a que estava atrás da máquina de café que precisava ser salva. De repente ela fosse a heroína.
-Personagens desconhecidos, sentimentos recorrentes e uma cena que começa do nada e do nada finda?-perguntei para o bonito.
-Chama-se finitude, Dinho.
Escrito por Dinho Bandini às 15:23:15
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[fantasia-improvisoouantibluesgirlblues]
Que estranha era a luz que a compunha como se de fato fosse a única forma de luz decente. Pois em luz só se guia durante o dia. E em noites que ela falta. No entanto, era de cegueira complacente que esses momentos morriam indigentes. Vala comum. O feriado do calendário Maia mina a casa com amuletos cortantes, em especial os espelhos, cortantes em seus dois sentidos. Porém, assim como aquele misticismo mal intencionado a felicitava, lhe deprimia sensualmente o ceticismo e foi isso que em algum momento me fez ajoelhar entre suas coxas e rezar por ter esta rosa pingando orvalho entre nós. Na dela, eu que terminasse afinal de tocar aquela preciosa e incrédula canção à toa. Era meu blues que a colocava em transe. Isso fez com que nossos silêncios falassem mais alto desintegrando solenemente a lentidão da saia subindo tanto que o incenso não foi suficiente pra livrar nossa cara da comicidade da cena. Ou então da manifestação mínima de afeto, ao qual nem Deus nem o Diabo correspondente julgavam ser abundante, que iria imprimir um raro tom de redenção nas vidinhas bestas ali estacionadas e em ponto de bala. Ou do beijo que viria em seguida, prevendo nossa fantasia-improviso-de-fetiche.
Escrito por Dinho Bandini às 15:16:53
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[Cíntia]
Foi com trinta e cinco anos que eu larguei tudo e fui morar no interior da nação. O dinheiro que eu havia juntado em seis anos foi suficiente pra eu comprar uma pequena fazenda e uma vaca leiteira. A minha Cíntia. Na fazenda, eu plantava maconha, e era disso que vivia; era, portanto, agricultor, ou traficante, se preferir.
A fazenda:
Comecei plantando pouca erva, apenas uma horta. O suficiente pra eu não morrer de fome e ter o que fumar naquela imensidão modorrenta. Com o passar dos meses fui ampliando o espaço fértil, o que antes fora horta era agora plantação. Comprei toda a maquinaria necessária, é claro, transformando a plantação numa imensa indústria verde: canos de aço resplandecentes, ferro cromado, tubulações extremamente complexas, jatos de líquidos transparentes salpicando a folhagem hortálica, enfim. A colheita era sensacional. Comprei cágados e os espalhei por todo o espaço útil, enriquecendo assim o ambiente.
A vaca:
Cheguei na fazenda vizinha e disse: quero uma vaca. O dono da fazenda, Natanael, me levou ao curral e disse: escolha. Olhei pra esquerda e vi uma vaca marrom ruminando capim; seu nome é Sofia, disse Natanael. Olhei pra direita e vi uma vaca preta abanando o rabo; Angélica, falou Natanael. Olhei pra frente e vi uma vaca malhada, branca com manchas pretas; Bárbara, disse o dono. Olhei pra cima e vi uma vaca amarela; Cíntia.
Foi assim que começou meu idílio com Cíntia, minha vaca leiteira. De seu leite me alimentei, o leite da vaca amarela. Mas, pobre Cíntia, não durou muitas primaveras.
Larica:
Acordei e fui cuidar da plantação. Todos os dias eu percorria as dezenas de hectares que me pertenciam, de bicicleta, verificando as condições do solo e fazendo previsões com relação à temperatura, pressão atmosférica e umidade relativa do ar. Foi com espanto que, de súbito, para o meu horror, secamente, me bati com o defunto de Cíntia sobre o solo, o sol rasante penetrando sua carne inerte, as moscas sobrevoando seu corpo sujo de terra.
No dia fatídico, Cíntia acordou com fome e foi para o pasto. Comeu, comeu bastante, a vaca, até que cansou, cansou de comer capim, só capim. Andou, parou, deu um mugido e continuou andando, em direçào à plantação, ervas cheirosas a esperavam para uma incrível refeição, um verdadeiro banquete. Foi com enorme prazer que Cíntia sorveu, ou melhor, ruminou o primeiro quilo da erva. Uma sensação diferente invadiu seu monumental corpo amarelo, um prazer desconhecido, uma languidez a contaminou. Fosse apenas a languidez, tudo bem, Cíntia estaria viva, mas com a languidez veio a larica, a devastadora larica. Quanto mais ela comia, mais fome sentia, mais insaciável ficava. Foi, acredito, o primeiro mamífero a morrer de overdose de erva, e foi assim que eu, um rico agricultor, perdi minha plantação, e com ela minha fortuna, meus sonhos e meu amor, minha vaca.
Escrito por Dinho Bandini às 15:15:52
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[desabafo]
Bem, na verdade...eu gostaria de te falar que... eu... decidi que todos os... bem... acho que pode ficar um pouco obscuro para você... não é?... Pois é... de qualquer forma... bem... o que eu quero dizer de verdade é que... todos os... olha... eu sei que é difícil mas é assim que as coisas acontecem e... poisé... talvez eu não esteja conseguindo me expressar direito mas... no fundo do fundo eu... sei lá... talvez você me ache confuso e eu também... bom... é importante que você entenda que... não, acho que... na verdade... eu só gostaria de te pedir que... eu sei que não é fácil prá nós mas... tenta ver por outro ângulo, afinal todos os... desde que... ah, deixa prá lá... fica aí ouvindo o disco do... este que tá aí do lado... eu vou fazer um suco prá nós... depois a gente falar melhor sobre... bom... eu já volto...
Escrito por Dinho Bandini às 14:58:40
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[vocêquerqueaSaraváembora?]

Escrito por Dinho Bandini às 15:08:22
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[3estóriasanti-eróticas]
1. Balzac vs. Nabokov
Ele tem duas amantes, uma de 36 e outra de 14. Mãe e filha, as duas deliciosas. O melhor de dois mundos, beleza madura e frescor juvenil. Balzac e Nabokov.
E, no entanto, ele não está satisfeito. É que, de noite, ao copular com a Sra. X, ele vê por trás do rosto maduro da mulher os inconfundíveis traços suaves e sem rugas da filha, e deseja ardentemente estar com a menina. Mas, de dia, ao fornicar com a adolescente enquanto a outra trabalha, adivinha no corpo ainda não plenamente formado da mocinha as voluptuosas curvas da mãe, e deseja ardentemente estar com a Sra. X.
Assim, para não falhar, ele precisa fazer amor sempre de olhos fechados, imaginando que está com uma quando está com a outra, sonhando estar com a outra quando só pode estar com a uma, e seus dias e noites são uma tortura sem fim.
2. O dilema de Aníbal
Aníbal é gordo, feio e não muito esperto, mas todos os dias copula com uma mulher maravilhosa e sexualmente insaciável que, como se não bastasse, o ama. O problema é que Aníbal não pode contar essa deliciosa novidade ao seu melhor amigo, a quem sempre conta tudo, pois a tal mulher maravilhosa que o ama é justamente a esposa deste. Aníbal, ao não poder contar ao amigo seu último e mais fascinante caso, sente como se nada daquilo estivesse realmente acontecendo. O amigo, por sua vez, estranha que Aníbal não mais lhe conte histórias sobre sua vida sexual, e o pressiona para que explique de uma vez quem é a gostosa safada com quem ele certamente anda saindo.
Aníbal pensou várias vezes em contar a verdade ao amigo, mas sabe que, se contar, perderá a mulher e a amizade. Isso o angustia, não tanto pela perda da mulher, mas porque não terá mais o único amigo a quem pode contar as histórias de sua vida. Ele também pensou várias vezes em abandonar a mulher, mas esta prometeu que dirá tudo ao marido caso Aníbal a deixe, e assim de qualquer forma a amizade estaria perdida.
É por isso que, sempre que está próximo das duas pessoas que mais ama no mundo, Aníbal sente apenas angústia, e, depois de gemer no frêmito do orgasmo, ele chora convulsivamente.
3. Efeito Colateral
J.B.S. é diretor de cinema e, devido ao glamour de sua profissão, tem a oportunidade de fornicar com os mais belos tipos de garotas. Recentemente, entretanto, ele tem tido constantes crises de impotência. A única cura é um medicamento homeopático que, para sua desgraça, causa como efeito colateral repetidas alucinações. Alucinações de caráter sexual, extremamente realistas; tão realistas que, nos últimos meses, devido ao uso extensivo do medicamento - que tornou as alucinações tão ou mais freqüentes do que as cópulas - ele já não consegue diferenciar os atos sexuais imaginários dos reais.
Agora, toda vez que ele fornica (ou imagina fornicar) com famosas atrizes ou belas modelos, é atacado por uma horrível sensação de desespero, pois não sabe se está realmente fornicando ou se está apenas tendo uma alucinação. Não é raro ele interromper o ato aos gritos, empurrando para longe as garotas que, com ou sem razão, ele julga imaginárias. Seu equilíbrio mental é cada vez mais precário; seus filmes, cada vez mais sombrios.
Escrito por Dinho Bandini às 14:51:34
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[umademinhasmortes]
Daí eu fechei os olhos e morri. Um pouco antes eu tive medo mas daí eu pensei: ah chega, vamos ver o que rola. Por um instante (eterno?) senti a abstração absoluta de simplesmente ser. Mas não era ser. Era um meta verbo muito maior que To be - que engloba ser e estar - , eu não pensava em latim ou esperanto e eu também não via as cores como espectros diferentes da mesma luz, não havia prisma, não haviam ondas sonoras e nem eletromagnéticas tudo era simplesmente - eu. Eu era (seria, sou, será... - não havia tempo também). E eu me senti lindo e agradável e sabia que isso era o momento de gozo do universo naquele instante (eterno?), daí quis sentir a dor e o horrível e eu era a ferida ácida e agonizante do universo do fracasso e do medo, mas decidi não ter medo, pois era tudo tão intenso e lógico agora, eu simplesmente sentia que existia, e tudo que eu conhecia até então, e tudo era parte de mim. Meu gozo era todas as alegrias e conquistas de universos de todos os tempos em um só instante (eterno?), e minha dor todo o seu terror e angústia. Mas nada tinha nem deveria ter razão ou explicação. Eu não era físico, eu não tinha um corpo, por isso podia ver as coisas de vários pontos de vista, vivi em instantes (eternos?) as vidas de todos vocês, de todos os cachorros, gatos, ornitorrincos, dinossauros, brócolis , computadores, robôs, amebas, estrelas, cometas, palavras, músicas, bolhas de sabão. Daí por certa nostalgia da linguagem, por talvez um certo receio de perder a intensidade, ou simplesmente solidão eu dei um grito: DEUS!!!!!!!
- Hahaha. Ta pensando que você é quem seu mané?? O cara??? - disse uma garota linda e fosforescente que sugiu diante de mim.
- Eu não penso nada, simplesmente existo. Essa é minha única certeza. E se as outras coisas existem, existem tanto como eu e da maneira que eu as vejo. Como não sou matéria a sua matéria é meu corpo agora.
- Hahahaha. Ta pensando que é o cara!! Se liga meu, tem uma porra aí que os tais de espíritos evoluídos chamam de KARMA, tá ligado? Os que tem corpo tem que ficar pagando pelas vezes que não estavam ajudando o universo a evoluir e tavam se divertindo com as vantagens de ter um corpo enquanto ele não apodrece. E a gente fica aqui ajudando eles a se ligarem das cagadas iluminando seus pensamentos.
- Ah não vem cagar regra aqui não. Eu morri. Consegui ter o máximo da experiência metafísica e você vem aí falando minha língua, com um corpo de gostosa querer me fazer trampar até depois morto. Nem fudendo.
- Puta merda mais um zombeteiro apegado naquele planetinha azul. Tá. Tá. Vamos descer lá mexer uns copos e atazanar uns bêbados.
Senti que eu estava entendendo mais humanamente as ondas eletromagnéticas, consegui até mexer alguns copos, falar algumas besteiras prum doidão viciado em Baudelaire e esconder uns cds duma menina que acredita em duendes. Mas toda esse mundanismo me deu uma saudade do meu corpo, da certeza de ser o Dinho. Aquele espírito da guria sempre vinha com aquele papo de karma, que tinha que reencarnar pra pagar e bla, bla, bla. Nunca dei muito ouvidos a ela mesmo, e desde vivo sempre fui do contra. Eu sou mais eu. Fui lá no instante em que decidi morrer. Me vi tendo convulsões depois de uma bad trip resultado de uma semana enchendo a cara se chapando e tomando ácido, deprimido por uma dor de cotovelo. Olhei nos meus olhos vazios. Fechei os olhos e vivi. Na hora fiquei confuso, entrando de novo no espaço tempo. Camisa de força e 15 dias de haldol. Saí da clínica e fui voltando a rotina, passou o tempo e da depressão cheguei na alegria que estou aqui a contar esse episódio.
Mas pra não confundir prefiro afirmar que é tudo imaginação.
Escrito por Dinho Bandini às 14:49:55
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[Bsilar,opaísimpossívelpartedois]
Pois pelo menos houve cheiro de que aconteceria alguma coisa, em meio àquela pasmaceira absurda em que Bsilar vicejava. Um local vasto, lindo, repleto de toda maravilha, da botânica ao canto do quero-quero. De fato, Bsilar era uma terra que tinha tudo para ser o Paraíso, caso esse existisse. Ao contrário, estava o país e sua gente atolado na lama, o povo em desgraça econômica, moral e social. Era o caos. Daí, o tumor começou a dar sinais de exaustão, e veio a furo.Em questão de pouco tempo, arrisco dizer, em coisa de pouco mais de dia, redações incharam de papel, e o governo, de indignação. Sim, pois é a imprensa quem dá voz aos atos do governo, aos seus pacotes, pronunciamentos oficiais, inaugurações, planos econômicos, discursos de posse: é ela quem lhe dá tamanho, projeção imagem — em outras palavras, é a imprensa que dá existência ao que é "importante", como o governo, e a tudo o que "acontece".Certamente (ora, melões), aqui não está escrito que é a imprensa que forma o mundo. Pode deformar, mas as coisas estão aí, é só abrir os olhos. Porém, são as coisas sacralizadas, oficialescas, a aura dos signos do poder, a seriedade do estabelecido como ordem é que são algumas das ações providas e promovidas pela scherazade linguaruda.Mas, o que aconteceu, então? Governo estupefato, assessores foram tabefeados, todo o pelotão de guardas da "democracia" em suspenso, o primeiro ato foi...Pegar o telefone e ligar – papel do assessor, que a esta altura era capaz de tirar toda a roupa para a chefia passar por cima. Telefone, esse aparelho que, entre linha e outra, tráfico verbal persuasivo e todo o mais que se possa imaginar em retórica, sempre funciona. Só que, desta vez, aconteceu diferente.
Sem chances: por mais fantástico que possa hoje parecer, as equipes de todas as redações se uniram, editores simplesmente sumiram, ninguém foi capaz de permutar nem um cartão VIP permanente para o Clube Med ou qualquer jabá oferecido pela liberação da pauta.
O jeito foi, antes da ignorância, apelar para a lei. A magnífica e honrada lei, a qual qualquer melão sabe que se escreve em caixa alta inicial, o que aqui se omite por motivos nem tão óbvios assim.Como o governo pode ocupar espaço gratuito na mídia, eis a saída para o impasse. Primeiro, sucederam-se as explicações aos leitores e ouvintes e telespectadores:
— Caros cidadãos. Tivemos que recorrer à lei para que pudéssemos, como autoridade máxima da nação, poder ser ouvidos por vocês. O que ocorre atualmente é um [adjetivo], pois a imprensa de todo o país parece haver parado. O país não melhorou um [adjetivo] com esta atitude [advérbio de modo mais adjetivo], [adjetivo] e [adjetivo]. A nação está sendo prejudicada e o governo, na pessoa do seu presidente da república, eleito democraticamente por sufrágio universal, faz aqui, neste espaço que foi garantido pela nossa [o nome da coisa, em caixa alta, evidente], um apelo. Viemos, em nome do país, em nome da democracia, em nome de toda a nação, lhes implorar para que não dêem crédito a nada do que possa estar sendo veiculado na imprensa. Isso é uma ação blablablá [adjetivo] etc.
to be continued...
Escrito por Dinho Bandini às 14:31:20
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[Brasil:fraudeexplica!]
Definitivamente o que está acontecendo no Brasil só Freud explica. Freud Godoy. Explica, mas não esclarece. E nem pretende. O esclarecimento é uma ilusão iluminista superada pelas vanguardas do poder. A questão, como se sabe, continua sendo sexual: dinheiro na cueca. O retorno do recalcado. O presidente, como sempre, não sabia de nada. É tudo novidade. Quer dizer, esse tipo de fato é novidade. O Continente Negro do Inconsciente(ou devo ser politicamente correto: continente afro-descendente?) domina o nosso o nosso operário no planalto. A sacanagem é tamanha que até o Super-Ego foi roubado. Nada de novo no front. A turma do FHC também não sabia de nada, nem precisa. A turma da ditadura também não: Geisel e Médici só ficaram sabendo da tortura pelos jornais. Epa, os jornais não podiam falar da tortura...então, talvez, tenham morrido sem saber de nada. Coitados! No Brasil, a corrupção é uma caixinha sem surpresas. Três resultados são possíveis: empate, empate e empate. Todo mundo ganha e não se faal mais no assunto, vence o Clube dos 40. Ahãn. Em todo o caso, vale aquela outra regra do futebol: quem pede recebe (se tiver disposição pra dividir) e quem se destaca tem a preferência. Tudo depende do valor do passe, das luvas e do prêmio extra. Quem fica parado é pato. Entramos na era da ética moral. É uma expressão do Umberto Eco, capisce? Consagramos a mentira ética, a mentira pelo bem de uma causa nobre. Pelo bem dos menos favorecidos. Era assim na ditadura. Foi assim na transição. Continua assim até o presente momento.
A única idéia moralmente inconstestável no Brasil de hoje é que o PCC controla o país de São Paulo pra baixo, o Comando Vermelho controla de São Paulo pra cima e os políticos controlam Brasília. Montesquieu dançou. Essa é a nova divisão dos poderes, independentes e harmônicos, trabalhando pelo mesmo fim. O nosso, of course. Os políticos legislam. O PCC e o CV julgam e executam. Já que Lacan não se manifesta, o pessoal saqueia o seu patrimônio. Nada escapa. Não é mais o sexo que acontece no imaginário, mas sim a bandalheira generalizada. Afinal, Lulalá não sabia de nada. Bem que Freud (o Sigmund) podia ser mais bem utilizado. Que tal explorar aquela tese dele de que não há civilização sem repressão? Aí até Freud poderia acabar na cadeia.
Escrito por Dinho Bandini às 14:25:24
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[cavalheiroJorge]
O fato é que ele ia ter que comer puto de novo. O preto retinto ainda batia no peito, não queria acreditar. Mas já era fim de festa e só tinha bicha para ele pegar. Logo ele, o Preto Jorge, o Jorge Brilho, e batia no peito.
Uns tempos atrás, quanta diferença. O Nego Jorge passava, roçava numa branquela e levava pra casa, sempre na dela. Depois voltava pra festa, essas de branco filhinho de papai, e ainda pegava outra. Às vezes uma brincava no meio das pernas dele que nem criança, fazia carinho até. Mas depois veio as patroas. Umas ricas, umas meio gordas. Atrás do Jorjão, que por essa época já mostrava o pau por uns trocados. Mas só para bicha rica, de respeito. Não sou prostituto dizia o Jorge Dois. Não era. Fazia por gosto, mesmo a contragosto. E hoje era aquele negócio, quem queria o Preto eram uns frangotes. Tudo bonitinho, limpinho, cheirando a leite ainda. Só podiam mesmo querer o Preto Onça. Forte, peito duro e sorriso branco, tava com tudo. Sem problema, era tudo guri direito. Aquela bebida de branco na cabeça do preto é que às vezes fazia ele se revoltar. Mas já tava bem, e quando percebeu tava num carro novo, indo pra não sei onde. Parou e saiu junto com o menino, que devia ter uns vinte anos menos que ele. Gostava de chamar ele de menino.
- Menino, vem cá...
- Tá bom.
- Quer começar?
- Deixa eu ver primeiro.
- Tá.
- Agora pode vir...ai!
- Que foi?
- Nada, continua.
- Tá...eu vou cuidar de ti.
Abraçava o menino pra acalmar. Quando fica nervoso é pior, fica apertado e dói mais. Mas foi rápido.
- Tu quer uma carona?
- Não, vou a pé que aqui todo mundo me conhece.
- É?
- Jorge da Tinta, meus cumprimentos - com um sorriso no rosto.
E saiu pelo descampado, de peito pra frente e com uma música na cabeça. Tinha se apegado ao menino. Viu que o guri lhe tinha respeito.
Escrito por Dinho Bandini às 13:21:58
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BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, BOM FIM, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Bebidas e vinhos, Música MSN - dinhobandini@hotmail.com
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