[águadenãobeber]

O pedreiro de 22 anos que, em Joinville, estuprou e, logo, estrangulou uma menina-bebê de 18 meses, eis todo um sí­mbolo do horror que nos espreita nas esquinas, acocorado como um pedinte humilde mas agressivo e ágil como cão raivoso: morde e estraçalha sem outro fim que morder e estraçalhar. Em horror assim, não interessa o crime em si, mas como formou-se o criminoso, o que gerou sua deformação absoluta. Nem sequer a onda de vulgaridade que assola o paí­s como um tsunami colossal explica situações como essa, mas é aí­ que se deve buscar a origem de tudo. Inclusive das patologias profundas da mente e da alma, alimentadas por um dia-a-dia que cultua a grosseria e a exibe na televisão. A promiscuidade sexual destroça a beleza profunda e inigualável do erotismo, e transforma a relação sensual homem-mulher numa luta de gladiadores, para ferir, destruir e, assim, "vencer". O amor desaparece como elo de atração. Fora da ilusão da conquista, não há nada. Em vez do objeto amado, só existe a ví­tima. Mas o chulo passa a ser "o máximo na vida". O estuprador de Joinville é um perverso doentio, mas o ví­rus que o afeta se propaga como "façanha heróica" pela TV ou a internet. E com nossos aplausos chega aos pontos mais ermos, num contágio geral.

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 Perdão por não escrever de flores! Os mais fétidos odores, porém, entram narina adentro e, neste ritmo, o olfato (habituado à  podridão) tomará o nauseabundo como água de rosas. Nas cidades, encurralados pela violência, já aceitamos que as mortes, roubos e assaltos façam parte da nossa vida e decidam sobre ela. Na polí­tica, o exercí­cio do poder desencadeia um jogo de cobiça e os caminhos cheiram a corrupção. Ou, pelo menos, ao manuseio dos ornamentos governamentais, formados pela contribuição dos impostos pagos por todos nós e que "eles" distribuem ao bel-prazer, como a raspa do cofre da vovó nas famílias decadentes. Agora, os jornais relatam a luta dos chefetes partidá¡rios para obter ministérios na área federal ou diretorias nas empresas estatais, onde os orçamentos bilionários ninguém de fora costuma bisbilhotar. A disputa limita-se a pressionar por cargos em função do orçamento. Nada se diz sobre o que pretendem fazer. Os nomes a indicar não se definem pela experiência ou por serem "notáveis" e ilibados. ás vezes, até, parecem surgir de um acaso mal explicado, como se compor um ministério fosse repartir despojos de algo mal havido, a ser feito sem explicações para "não complicar". A indicação do novo ministro da Agricultura, por exemplo, foi apontada aqui e no estrangeiro como "estranha". Não por ter sido um dos cinco nomes do PMDB (que não esteve em nenhum lado na eleição presidencial mas que, agora, surge em todos os lados), mas por responder a um processo na Justiça por fraude e falsificação de documentos, tal qual o acusa o Ministério Público de Mato Grosso. *** Os jornais chamam a atenção para o fato de o deputado Odí­lio Balbinotti ter pertencido à  antiga Arena, biombo polí­tico da ditadura militar. Não é isso, porém, que nos deve surpreender. Balbinotti só desempenhou cargos eletivos municipais pela antiga Arena e, por ela, iniciou-se como deputado. No governo Lula da Silva, gente muito mais próxima à ditadura foi ministro (ou ainda o é) em postos politicamente sensí­veis. O antigo chefe do setor polÃítico da embaixada do Brasil no Chile (que vigiava os exilados polí­ticos brasileiros antes e após o golpe de Pinochet), José Viegas, foi ministro da Defesa e hoje é embaixador em Madri. O ministro do Exterior, Celso Amorim, dirigiu a Embrafilme, cargo em que a cúpula fardada só nomeava gente de confiança. O que põe a nu a fantasia da nossa polí­tica é muito mais o fato de Balbinotti, já em democracia, ter pertencido a seis diferentes partidos: PFL, PDC, PDT, PTB, PSDB e agora PMDB. Se fosse menina de aluguel, para completar o itinerário, só faltariam o PC do B e o PT.